Câncer de mama aos 30 anos

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Olá queridas leitoras! Quem me acompanha no blog e no snapchat sabe o quanto falo da importância de nós mulheres procurarmos os exames de preventivo para câncer de colo de útero e para o câncer de mama (eco e mamografia). Não é só por conta do Outubro Rosa que falo isso.

Há alguns anos tenho escutado notícias de muitas mulheres jovens tendo câncer de mama e isso me alertou bastante pois sempre vemos na mídia a recomendação de exames para mulheres mais velhas, que é para começar a se preocupar com isso depois dos 45-50 anos, depoimento só de mulheres mais velhas…Raramente comentam sobre moças de 20-30 anos e isso acaba fazendo com que a gente não se ligue muito para isso.

Mas a verdade é que a doença pode sim pegar mulheres jovens e nesse caso é sempre mais agressiva e portanto o tratamento também é mais agressivo.

Segundo informações do INCA alguns fatores de risco para o câncer de mama são:
Primeira menstruação precoce, menopausa tardia (após os 50 anos), primeira gravidez após os 30 anos e não ter tido filhos. Além claro de histórico na família e outros fatores genéticos.

Por conta de tudo isso eu sempre estou fazendo meus exames e recomendando para que minhas leitoras também façam. Os exames são simples e rápidos e podem salvar sua vida!

Pensando nisso – em alertar cada vez mais mulheres jovens a fazerem seus exames de mama anualmente– e no Outubro Rosa, convidei minha ex-colega de trabalho Fran Baras, para uma entrevista aqui no blog. A Fran descobriu ano passado com 31 anos que estava com câncer de mama no estágio III. A entrevista está bem legal, confere ai :)

Com que idade descobriu o câncer de mama e como descobriu?
Quando recebi o diagnóstico estava com 31 anos e meio, mais ou menos. Isso foi em fevereiro de 2014, mas a história começa um pouco antes. Em junho de 2013, descobri um linfonodo aumentado na axila esquerda – quem se liga nos sinais e sintomas, sabe que pode ser já um indício de câncer de mama. Eu tinha essa informação, mas na tentativa de não parecer paranóica, marquei consulta com uma clínica geral. Para resumir a história, fiz alguns exames e depois de um ultrassom de mamas e axila ela solicitou que eu fizesse uma biópsia. Nesse momento eu fui vítima de negligência: o radiologista indicado por um hospital para fazer a avaliação pré-biopsia do linfonodo aumentado disse que seria uma linfonodomegalia crônica e que não havia urgência, que eu poderia fazer uma punção mais tarde. Já era agosto de 2013 e, aliviada com a informação, decidi marcar médicos, fazer exames, mas não me desesperar. É claro que, na correria, eu acabei não fazendo nada disso e, em dezembro de 2013, senti dores horríveis na mama esquerda. Havia um nódulo palpável bastante grande logo atrás do mamilo. No final de janeiro comecei a investigação: fui a uma mastologista e, por fim, cheguei à clínica oncológica onde fiz todo o meu tratamento e continuo o acompanhamento.

Qual foi sua reação ao descobrir o diagnóstico e como você trabalhou o psicológico para não perder a linha durante todo o processo?
Eu chorei muito e me desesperei em alguns momentos, mas isso durou até a investigação, especialmente no tempo de espera pelos resultados da biópsia. Para ajudar, o primeiro foi inconclusivo. Quando meu oncologista confirmou, eu me transformei e não derramei uma lágrima. Acho que me sentia mais segura nesse momento. Confiei (e ainda confio) 100% na equipe que cuida de mim e isso faz total diferença. A partir daí, foi fundamental pensar que esse tratamento levaria alguns meses e que ninguém me aguentaria se ficasse chorando o tempo todo. A vontade de conviver com as pessoas, continuar mantendo o mínimo de uma rotina normal, me fez tentar levar tudo com o máximo de leveza e bom humor. Procurei, ainda, viver um dia por vez, uma fase do tratamento por vez. Aconselhada pelo meu médico e com a compreensão da empresa, continuei trabalhando e tinha menos tempo para pensar na doença e sentir pena de mim mesma. É claro que havia os dias pós-químio em que era inevitável não sentir os efeitos, não ficar triste com as limitações: náuseas, muito cansaço, a imunidade caindo, me obrigando a mudar alimentação, tomar suplementação e ficar longe de aglomerações. Mas tudo correu como planejado e eu fui me adaptando até mesmo ao que não dava tão certo assim. Além disso, fazia terapia uma vez por semana.

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Houve muitos momentos difíceis? O que você procurava fazer? Sei que há muitas comunidades online para mulheres com câncer de mama, você fez parte? Te ajudou?
Por mais que eu tentasse, nem sempre estava bem. Essas limitações às vezes me faziam chorar, mas nunca questionar por que eu estaria passando por tudo aquilo. Nessas horas, família e amigos eram a quem eu recorria, muitas pessoas se fizeram presentes. Na internet, eu busquei blogs como o Quimioterapia & Beleza, o Além do Cabelo e os canais da Debs Aquino – uma corredora, amiga de uma amiga, que fez tratamento um pouco antes de mim. Eram leituras para informação e buscar experiências, soluções para algumas das questões mais leves como falta de sobrancelha, amarrações de lenços, etc. Hoje eu acompanho alguns grupos no Facebook para trocar experiências sobre o pós-tratamento e o bloqueio hormonal, encontrei especificamente um de jovens sobreviventes norte-americanas. Lá as mulheres são mais informadas e preocupadas com prevenção.

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Como foi todo o tratamento desde a 1a consulta? Quais foram os procedimentos? Quanto tempo demorou?
Vou considerar a primeira consulta com meu oncologista clínico, segundo médico que procurei. Foi ele quem me passou segurança. Saí da clínica com guias para uns 50 exames laboratoriais e um encaminhamento para biópsia com a radiologista que hoje é responsável por todos meus exames de imagem. Após o diagnóstico, fiz exames para descartar metástase – lembrando que meu tumor era grande e eu já tinha sinal da doença nos linfonodos na axila. Fiz também o PET-CT, que não detectou atividade metabólica irregular além da mama e axila. A partir daí, comecei a quimioterapia neoadjuvante. No início, a ideia era fazer cirurgia no meio do processo e seguir com mais quimioterapia. Como o tratamento respondeu muito bem, fiz oito aplicações e a cirurgia ao final. De março a agosto de 2014 fiz toda a parte de quimioterapia. Com o organismo restabelecido, fui submetida em setembro do mesmo ano à cirurgia. O passo seguinte foi a radioterapia, com 25 sessões. Das consultas até a última sessão de radioterapia foram 10 meses. Hoje eu sigo com bloqueio hormonal – medicamento via oral diariamente e uma injeção a cada 28 dias, o que deve acontecer pelo menos até 2019.

Você retirou a mama?
Sim, fui submetida a uma mastectomia radical na mama esquerda, com preservação mínima de tecido – a glândula, pele afetada pela doença, mamilo, tudo é retirado.  No mesmo procedimento, foi feita a adenomastectomia na mama direita (sadia), com retirada da glândula mamária e colocação de prótese (expansor) imediatamente. Não pude fazer a reconstrução da mama esquerda já que tinha indicação de radioterapia. Falei muito sobre isso com a minha psicóloga – nunca tinha sido internada e tinha pavor de anestesia e hospital. Tinha medo de como ficaria a mastectomia, não achei que aguentaria passar os seis meses sem a reconstrução (esse é o tempo mínimo que se precisa esperar depois da radiação), mas fiquei pouco mais de um ano. Minha cirurgia reparadora foi realizada no último dia 29 de setembro. O período da quimioterapia foi bom para preparação. Sempre fui muito insegura com a minha aparência e achei que a mastectomia me afetaria mais, mas consegui lidar bem com o resultado e tinha plena consciência que era uma questão de sobrevivência não só nesse momento, mas uma segurança para os próximos anos. O tratamento em mulheres jovens acaba sendo agressivo, por que a doença nessa idade também é. Descobri já em estágio avançado.

Sua rotina durante o tratamento mudou?
De alguma maneira, sim. Como eu comentei antes, continuei trabalhando. Me ausentava por dois dias a cada 21, para a quimioterapia. Após a primeira cirurgia foi um mês de afastamento e apenas quinze dias neste último procedimento. A vida social foi a mais prejudicada: lugares muito fechados ou aglomerações deixaram de fazer parte da minha vida, incluindo cinema. Fiquei mais em casa, recebia amigos e alguns deles adaptavam atividades – praças, feirinhas mais tranquilas ao ar livre eram as saídas por conta da baixa imunidade. Cheguei a usar máscara para sair de casa em alguns momentos e era engraçado ver a reação das pessoas na rua, achando que eu tinha uma doença contagiosa terrível!

Quando você decidiu cortar o cabelo e como foi?
Duas semanas após a primeira químio o cabelo começou a despencar (cair é pouco!). A sensação é estranha, mas meu cabelo sempre foi fino, tinha pouco apego a ele. No início, optei por um corte mais curto e, uma semana depois, pedi para minha cabeleireira raspar. Acho que eu era a quarta cliente dela a passar por isso e ela ficou bem mais abalada do que eu. Comprar lenços era minha diversão, não quis usar perucas. Até começar a inchar por conta do corticoide não me incomodei com a falta de cabelo e sobrancelhas – é o inchaço que nos deforma e deprime mais.

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Hoje qual é o seu diagnóstico e o que mudou em você (não só fisicamente)?
Hoje eu faço acompanhamento, exames periódicos e consultas mensais, não há mais sinais da doença. Mas a alta do tratamento e a cura só vêm mesmo após cinco anos sem recidiva. Um já foi!

Havia histórico de câncer na sua família? Sim, mas não de mama.

Você conheceu muitas moças jovens (de 20-40 anos) com câncer de mama?
Acho que conheci mais duas ou três moças ao longo desse período – uma delas com um tipo de tumor de tratamento mais difícil que acabou falecendo no início deste ano.

Você fazia os exames de mamografia e eco da mama antes da doença?
Eu era um belo exemplo do que não se deve fazer. Além da negação natural do ser humano, de não querer nem pensar na doença, nunca acreditei que pudesse fazer parte de um grupo de risco – nunca fui obesa, tentava me exercitar com alguma regularidade, consumia bebidas alcoólicas apenas ocasionalmente. Mas há inúmeros favores, além do genético, sou judia com origem na Europa oriental – um dos itens elegíveis para realização do teste genético que detecta a mutação que pode causar o câncer de mama. Enfim, sempre procurei ajuda médica em último caso, estava longe da regularidade neste tipo de exames. Se fosse diferente, talvez descobrisse mais cedo. Apesar disso, tive sorte – meu tratamento deu muito certo e tenho total chance de cura.

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Quais as dicas que você pode dar para uma mulher que esteja passando por essa situação e para outras mulheres que não têm o costume de fazer os exames de rotina?
Para quem já está passando por isso, eu sei que não é fácil, mas pode ficar mais agradável – ou menos desagradável, pelo menos. Eu aconselho continuar trabalhando ou manter uma atividade alternativa; tentar tirar o foco da doença. Ela vai tomar boa parte do tempo, mas não pode dominar ou definir a gente. É importante seguir as orientações da equipe médica, alimentar-se bem e cuidar do peso. Vai valer a pena! Há instituições de apoio às mulheres em tratamento, como a Associação das Amigas da Mama, em Curitiba, que promovem encontros, aulas e acolhimento, entre outras ações, como doação de lenços, próteses externas, empréstimo de perucas, etc.

Para as meninas que não se cuidam, é preciso entender que infelizmente, o risco existe. Todas as mulheres devem ir ao médico e fazer os exames com a regularidade necessária. Não esperar o Outubro Rosa ou acontecer com alguém próxima.

Aqui você pode conferir um depoimento que saiu na Record do PR de uma mulher que descobriu o câncer de mama aos 35 anos. Ontem o Fantástico contou a história de duas moças que descobriram o câncer de mama com 20 e poucos anos, uma delas com 6 meses antes do casamento e a outra grávida.

Espero que esse post realmente tenha um impacto positivo em vocês e que, além de buscarem os exames, aconselhem amigas, irmãs, primas, ESPALHEM O ALERTA! Como a Fran aconselhou, não esperem, simplesmente façam regularmente os exames.

Queria agradecer publicamente a Fran pela entrevista e desejar que tudo isso fique mesmo para o passado, que agora venham muitos anos de saúde :)

8 thoughts on “Câncer de mama aos 30 anos”

  1. Ótima entrevista. É preciso alertar estas jovens da precocidade no câncer de mama, útero e cólon.
    Cada vez mais deve-se chamar a atenção sobre a vacinação contra o HPV, que é uma forma de se prevenir contra estes tipos de canceres. Muitas vezes estas jovens nem sabem que estão contaminadas.
    Precisamos EXIGIR o direito de se fazer o teste genético(se você faz parte de um grupo de risco) para detectar as probabilidades de algum câncer( principalmente para servir de alerta para teus descendentes). Este teste é caro e ainda muitos médicos nem indicam.
    Desejo total restabelecimento para a Fran.

  2. Conheci a Fran na Móbile, era estagiária lá. Tinha um carinho enorme por ela, além de ser uma pessoa super querida, era minha colega de mesa e me ajudava muitas vezes. Quando ela descobriu a doença fiquei me perguntando “Por que acontece com pessoas boas?”, mas infelizmente é algo que a gente não escolhe.
    Fiquei feliz em saber que ela está bem e sem sinais da doença! Parabéns Amanda pela reportagem!

    1. Obrigada Lissa :) Infelizmente as doenças não escolhem pessoas, mas é uma alegria saber que a Fran já passou por todo o tratamento e não tem mais sinais, esse ano perdi uma prima por conta do câncer de mama, uma leitora disse que também perdeu uma amiga não faz 1 mês e teve essa conhecida da Fran que faleceu também. É uma doença dura e a Fran ter passado por tudo isso e estar ai inteirinha pra contar pra gente é <3 :) Só temos que comemorar!

  3. Ótimo post Amanda. Fazia tempo que não vinha ao seu site.
    E Hoje por acaso resolvi dar uma passada e vi sua matéria com a Fran (minha xará).
    Eu levo a Fran como exemplo, pois quando ela vinha até a empresa nunca vi ela triste, abalada. Claro q tinha os dias em que ela realmente não estava bem. Mas na maioria dos dias ela sempre feliz e com vontade de viver. A Fran é uma pessoa que eu adoro trabalhar junto, e me alegra todo dia em ver ela feliz sempre com aquele sorriso maravilhoso que ela tem estampado no rostindo dela. As vezes chego na empresa meio pra baixo, mas assim que a Fran sobe a escada e da aquele bom dia com um sorriso lindo, meu dia passa a se tornar melhor. A Fran é uma guerreira e meu exemplo. <3
    Parabéns pela iniciativa da reportagem Amanda.
    Seu site está cada dia melhor.
    Beijinhos

    1. Oi Fran! Realmente a gente vê nessas pessoas guerreiras que nossos problemas são muito pequenos e nos inspiram a sermos mais fortes!
      Obrigadaaa e volte sempre aqui no blog hehehe!
      bjsss

  4. Eu fiz mastectomia radical em Setembro do ano passado, fiz quatro seção de quimioterapia, estou com espansor não tem previsão de quando irei fazer a reconstrução. Sou casada sem filhos tenho 49 anos, gostaria que indicasse uma atividade, pois meu médico diz que posso fazer tudo como: dirigir, fazer exercícios físicos porém sinto muitas dores no espansor. Sou artesã e não consigo fazer nada. Dias de muita tristeza e desânimo. Faço terapias com psiquiatra e psicológica.

    1. OI Maria, na internet você encontra blogs especializados para pacientes com câncer de mama que podem te ajudar :) Esse foi apenas um relato de uma amiga que teve e gentilmente contou a história para o meu blog. Bjs

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